Mallu Côrtes é uma mulher jovem, negra e cria de Xerém, na Baixada Fluminense. Começou sua militância aos 15 anos, no movimento estudantil pelo passe livre, e construiu sua trajetória na luta por mobilidade e pelo direito à cidade. Atuou no Observatório dos Trens, é articuladora política do Movimento Mulheres Negras Decidem e criou campanhas para popularizar o debate sobre a Tarifa Zero. Agora, é candidata a deputada estadual para representar as mulheres negras, a juventude, a Baixada Fluminense e quem enfrenta diariamente um transporte público caro, demorado e sucateado.

Você vem de Xerém, na Baixada Fluminense, e construiu sua trajetória política a partir das lutas por mobilidade e pelo direito à cidade. O quanto ser uma mulher jovem, negra e cria da Baixada influencia a política que você quer fazer na Alerj?

Eu cresci vendo minha mãe sair de casa antes de eu acordar e chegar quando eu já estava indo dormir. Essa não é uma realidade isolada da minha mãe. É a realidade da maior parte das mulheres que moram na Baixada Fluminense, que fazem a Cidade Maravilhosa acordar, mas muitas vezes deixam seus filhos em casa e convivem muito pouco com a família.

Isso precisa mudar. A gente tem um transporte público no Rio de Janeiro extremamente caro, demorado e sucateado. Isso é um projeto de cidade organizado pela máfia das empresas de transporte público.

Só quem vivencia o transporte público todos os dias sabe da necessidade e da urgência de mudar essa realidade. Por isso, quero estar na Alerj. Quem vive os problemas da Baixada Fluminense precisa ter vez e voz.

A Tarifa Zero se tornou sua principal bandeira. Para quem ainda considera essa uma ideia utópica, qual é o argumento mais concreto para mostrar que ela pode funcionar no Rio de Janeiro?

A gente vem acompanhando os grandes avanços da Tarifa Zero no país inteiro. Hoje, são mais de 130 cidades e essa política só avança. No estado do Rio de Janeiro, já são mais de 20 cidades com Tarifa Zero.

Isso mostra que essa política não é apenas possível, ela é inevitável diante de uma mobilidade que hoje nos rouba tempo e dinheiro, principalmente para alimentar a máfia dos transportes públicos.

A gente pode mudar essa realidade, sem dúvida. Há 50 anos, o SUS era considerado impossível e hoje é uma referência internacional.

Queremos criar o Sistema Único de Mobilidade. Assim como aconteceu com o SUS, queremos fazer com a mobilidade, pensando o transporte como um direito social e não como mercadoria.

Você costuma falar da mobilidade como uma questão de dignidade. Que outras políticas públicas considera fundamentais para garantir dignidade a quem vive nas periferias do estado?

Eu tenho dito muito que a Tarifa Zero é o caminho para que a gente consiga acessar vários outros direitos básicos.

Para acessar a saúde, chegar à universidade ou conseguir um emprego, você precisa do transporte público. Hoje, da forma como está colocado dentro dessa lógica mercadológica, o transporte do Rio de Janeiro é um dos mais caros do país.

Aqui, a gente tem a passagem de metrô mais cara do Brasil e nada explica essa tarifa. Na Baixada Fluminense, existem passagens que consomem mais de 30% ou 40% do salário mínimo de um trabalhador.

Se é impossível pensar a vida sem deslocamento, como o transporte público pode ser a maior barreira para que a gente acesse esses direitos?

Você construiu sua trajetória fora da política institucional e agora busca uma cadeira na Alerj. O que os movimentos sociais conseguem enxergar que muitas vezes o Parlamento não consegue?

A gente tem, tanto na Câmara Federal quanto na Alerj, o retrato de uma política que não nos representa.

Nós, mulheres negras, somos sub-representadas. E, quando perguntamos quantos jovens ocupam esses espaços, o número é ainda menor.

É impossível pensar políticas públicas para nós sem nós. Ocupar esses espaços hoje é falar das nossas vivências.

Eu sou uma moradora da Baixada Fluminense, uma mulher negra que sabe o que é pegar um transporte público lotado todos os dias e que já deixou de chegar à universidade por causa do preço da passagem.

É isso que a gente precisa debater: políticas de bem viver para quem pega o transporte público todos os dias.

Quando se fala em desenvolvimento do Rio de Janeiro, a discussão normalmente passa por grandes obras, investimentos e geração de empregos. Qual deveria ser a prioridade de um projeto que coloque a qualidade de vida da população no centro?

Nada contra o BRT, mas a gente precisa falar sobre transporte público de massa.

Quando a gente fala de transporte público de massa, precisa falar sobre a expansão do metrô e, principalmente, sobre a requalificação dos trens.

Na década de 1950, o Rio de Janeiro já teve uma das maiores malhas ferroviárias do mundo. Hoje, a gente tem um transporte ferroviário extremamente sucateado, que virou a última opção das pessoas.

Como a gente pode perder tanto tempo em engarrafamentos e continuar investindo de forma errada em rodovias, enquanto poderíamos ter um transporte público de qualidade para levar as pessoas das periferias ao centro do Rio?

Para além das bandeiras já associadas ao seu nome, que outras áreas você quer que o eleitor conheça e que projeto de deputada pretende apresentar ao Rio de Janeiro?

Muita gente me conhece como a menina da Tarifa Zero, e não deveria ser de outra forma. No ano passado, organizei o Folia sem Catracas, uma campanha ativista para discutir como tornar o carnaval mais acessível e democrático.

Também organizei o Tarifa Zero no Enem, para debater o deslocamento dos estudantes nos dias de prova, além das campanhas Gaga de Busão 0800 e Shakira de Busão 0800. A gente tem lutado muito para popularizar o debate da Tarifa Zero.

Mas, para além disso, sou articuladora política do Movimento Mulheres Negras Decidem, que luta para colocar mais mulheres negras nos espaços de poder.

Atuei durante muitos anos no Observatório dos Trens, uma iniciativa que defende melhorias no sistema ferroviário. Também criei o Vida em Trânsito, junto com a Caroline, para debater o tempo gasto nos deslocamentos pelo transporte público.

Estou na luta desde os 15 anos. Comecei no movimento estudantil pelo passe livre. As lutas são muitas, mas a pauta do transporte público sempre esteve no centro.

Quando o eleitor encontrar seu nome na urna, qual compromisso você gostaria que ele estivesse escolhendo para os quatro anos de mandato?

Queremos levar a pauta da Tarifa Zero para todo o Rio de Janeiro. Hoje, mais de 20 cidades do estado provam que essa política é possível, e a gente quer ampliar ainda mais.

Também precisamos pensar em como requalificar o sistema ferroviário e melhorar o tempo e a qualidade de vida da população como um todo.

De Xerém para a Alerj, é Mallu Côrtes, 13777. Vem com o bonde da Tarifa Zero.