Anielle Franco é cria da Maré, professora, mãe, jornalista e ex-ministra da Igualdade Racial do governo Lula. Irmã de Marielle Franco, construiu sua trajetória a partir da educação, do esporte, da defesa dos direitos humanos e da luta pela igualdade racial. Agora, é candidata a deputada federal para levar ao Congresso a experiência acumulada no governo federal e fortalecer políticas para mulheres e meninas, juventude, população negra, moradores de favelas e periferias.
Quem é Anielle Franco e por que você é candidata nas eleições de 2026?
Eu sou Anielle Franco, cria da favela da Maré, professora, mãe, jornalista e jogadora de vôlei desde os oito anos de idade. Sou irmã de Marielle, com muito orgulho, filha de dona Marinete e neta de dona Filomena.
Cresci ouvindo meus pais dizerem que o conhecimento é uma coisa que ninguém tira da gente. Levei isso muito a sério, principalmente porque vivemos em uma sociedade que muitas vezes insiste em dizer que pessoas faveladas não podem chegar a determinados lugares. A educação foi uma ferramenta fundamental na minha trajetória.
Também carrego comigo a história da minha irmã Marielle e tudo aquilo que aconteceu com ela por meio da violência política extrema. Dez anos depois da eleição dela, decidimos colocar o nosso nome novamente à disposição, com muita dignidade, luta e coragem.
Quero chegar à Câmara para mostrar que pessoas que vêm da favela estão preparadas não apenas para chegar aos espaços de poder, mas também para permanecer neles e abrir caminhos para muitas outras. Acredito em uma política feita com afeto, justiça, coragem e enfrentamento.
Você foi ministra da Igualdade Racial no governo Lula e tem uma trajetória de militância em direitos humanos e igualdade racial. Como essa experiência molda sua plataforma para a Câmara dos Deputados?
Eu gosto muito de uma frase: o coração sente e a cabeça pensa onde os nossos pés pisaram. Quando o presidente Lula me convidou para assumir o Ministério da Igualdade Racial, levei comigo toda a minha própria experiência.
Sou uma mulher que cresceu na Maré e que encontrou na educação, no esporte e na cultura ferramentas fundamentais para construir sua trajetória. Foi essa vivência que também levei para o Ministério.
Quando falamos de igualdade racial, precisamos entender que ela atravessa diferentes áreas. Segurança pública precisa ser feita com qualidade e estratégia. Cultura precisa chegar a todos os territórios. Educação transforma vidas. O esporte também transforma e, na minha própria história, sempre foi fundamental, inclusive para cuidar da minha saúde mental.
Ao lado do presidente Lula, construímos editais, bolsas de estudo e políticas voltadas especialmente para a juventude negra e periférica. Rodamos o Brasil ouvindo jovens e percebendo como educação, saúde, trabalho, cultura e proteção precisam caminhar juntos.
Agora, quero levar essa experiência para o Congresso e trabalhar para transformar políticas públicas importantes em leis que possam continuar chegando a quem mais precisa.
À frente do Ministério da Igualdade Racial, qual foi o principal desafio que você enfrentou e como essa vivência vai influenciar seu trabalho como parlamentar?
Eu diria que foram dois grandes desafios. Um deles foi enfrentar um período marcado por muita mentira, fake news e ataques contra quem trabalha pela defesa dos direitos da população. Muitas vezes, questões ideológicas acabam impedindo um diálogo que deveria ter como prioridade a vida das pessoas.
Quando falamos, por exemplo, da proteção da juventude negra, não deveria existir espaço para colocar disputas políticas acima da humanização. Precisamos sentar, ouvir e construir soluções.
O outro desafio foi mostrar que a igualdade racial precisa estar presente em todas as áreas das políticas públicas. Não se trata de tirar o lugar de ninguém. Trata-se de construir igualdade e oportunidade para todas as pessoas.
Os dados mostram que a população negra e pobre ainda está entre as que mais sofrem violência, mais morrem e encontram mais dificuldades para acessar direitos. Por isso, precisamos continuar trabalhando pela democracia, pelos direitos humanos, pela igualdade racial e por um país mais justo.
Quais serão as três prioridades do seu mandato?
A primeira prioridade será a proteção das mulheres e meninas. É inadmissível conviver com níveis tão altos de violência contra as mulheres. Essa é uma realidade que também atravessou a minha própria vida, e quero estar no Congresso trabalhando para que nenhuma forma de violência seja naturalizada.
Outra prioridade será a juventude. Quero lutar pelo direito dos jovens à educação, à saúde, ao emprego e à saúde mental. Durante minha passagem pelo Ministério, participei da construção e do fortalecimento de políticas para a juventude negra, e quero garantir que esse trabalho continue avançando.
A terceira prioridade será o direito à vida e à dignidade nos territórios. Precisamos pensar nas favelas, no transporte público, no acesso aos serviços públicos e em políticas que cheguem de verdade a todos os lugares.
E tudo isso também passa por fortalecer e defender o legado de Marielle, levando adiante pautas que ela já defendia, como os direitos das mulheres, das mães e das pessoas que vivem nas favelas.
Na sua visão, qual é hoje o maior desafio do Rio de Janeiro e qual é a sua proposta prática para enfrentá-lo?
Um dos primeiros desafios é fazer com que as pessoas voltem a acreditar na política. O Rio de Janeiro tem uma história marcada por muitos problemas na gestão pública, e recuperar a confiança da população é fundamental.
Sem política, sem boas leis e sem pessoas comprometidas ocupando os espaços de decisão, não conseguimos transformar a realidade do nosso estado.
Também precisamos enfrentar a criminalidade e construir uma política de segurança pública que caminhe junto com oportunidades. Como professora, acredito profundamente na educação como uma das principais ferramentas para mudar vidas.
Precisamos investir em educação de qualidade, criar oportunidades para os jovens, proteger as mulheres e levar políticas públicas para dentro das favelas e periferias. É assim que podemos enfrentar a violência de maneira séria e construir um Rio de Janeiro mais justo.
Como você pretende manter um diálogo direto e transparente com a população ao longo de todo o mandato e não apenas no período eleitoral?
Eu não acredito em luta solitária. A luta precisa ser coletiva. Por isso, quero construir um mandato em que as pessoas estejam comigo, não apenas dando o voto, mas apresentando propostas, participando e cobrando também. Porque tem que cobrar.
Tudo o que tenho de mais importante é a minha palavra, o legado da minha família e o meu nome. Quero que as pessoas que me derem esse voto de confiança participem da construção desse mandato.
Não é possível pensar em uma cidade, um estado ou um país mais digno sem a participação do povo. Acredito na política feita com afeto, mas também com coragem, enfrentamento, dignidade e muita luta.
Não quero aparecer nos territórios apenas em período eleitoral. Quero estar lado a lado com a população durante todo o mandato, ouvindo, construindo propostas e dividindo também a responsabilidade de transformar a realidade.
Por que o eleitor deve confiar o voto em você em 2026 e o que pode esperar da sua atuação no dia a dia?
Pode esperar muita coragem, enfrentamento, comprometimento e construção coletiva. Precisamos de pessoas que cheguem aos espaços de poder entendendo aquilo de que o povo realmente precisa, compreendendo o que as mulheres enfrentam diariamente e não normalizando nenhum tipo de violência.
Eu sei o que é trabalhar muito. Sei o que é acordar cedo, preparar marmita, pegar ônibus e metrô. Dei aula em várias escolas no mesmo dia e ainda saía para dar aula particular. Conheço de perto a luta dos professores e também a realidade de muitas mães.
Há dez anos, eu estava por trás das bandeiras ajudando a construir uma campanha muito bonita para Marielle. Hoje, estou colocando o meu próprio nome à disposição com a mesma dignidade, coragem e vontade de lutar.
Quero dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos no Ministério da Igualdade Racial e também às lutas que Marielle iniciou. Chego preparada, com disposição para trabalhar e com independência para defender aquilo em que acredito.
Quem confiar o voto em mim pode esperar responsabilidade, coragem, luta e um mandato construído junto com as pessoas.




