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As classes intermediárias e o exército reacionário

Por Washington Quaquá

As classes intermediárias são setores sociais que, como o nome mesmo sugere, não constituem os polos fundamentais da sociedade capitalista. As classes fundamentais são de um lado a burguesia, como classe dominante do sistema; e o proletariado como classe portadora de uma anunciação revolucionária para a sociedade, embora desta questão falaremos mais à frente, em outro artigo.

Como não são nem os “donos” do sistema e nem seus oponentes, estas classes flutuam como garrafa n’água. São muito heterogêneas e desempenham funções variadas na sociedade. São funcionários especializados, com formação universitária ou técnica; são pequenos comerciantes; artistas; juizes; oficiais das forças armadas e polícias; promotores e funcionários de nível superior da burocracia estatal; médicos; advogados; etc

Uma classe social que possui, pela renda média elevada, condições de reprodução que permitem que seus filhos frequentem boas escolas; tenham acesso a livros; viagens; consumam produtos culturais; e conheçam outros países e culturas. Vivem uma vida semi burguesa, dentro do universo cultural e do modo de vida desta, embora convivam também com o pavor da proletarização, já que não possuem os meios de produção e nem renda suficiente pra financiar um modo de vida burguês pelo resto da vida. No geral tem inveja dos ricos (burguesia), mas tem horror mesmo é dos pobres.

Nos momentos de Bonança econômica da sociedade guardam sua frustração pessoal, característica essencial desta classe. Mas em momentos de crise, quando veem seu padrão de vida ameaçado, deixam fruir seu preconceito e sua violência, seja social, de gênero, racial etc. São a base de todos os exércitos fascistas e ponta de lança das violências burguesas ao logo da história moderna.

Verdade que muitos intelectuais e profissionais destes setores médios aderem à luta popular e as causas dos trabalhadores; e parcelas até mesmo numericamente representativas podem ser atraídas por um projeto popular se este souber compor uma narrativa hegemônica na sociedade. Mas estas são classes majoritariamente conservadoras e reacionárias.

Foram elas que serviram aos exércitos de Hittler e Mussolini; fizeram a marcha da família, com Deus e pela propriedade que preparou e deu base ao golpe de 64 no Brasil; foram eles que encheram as ruas do Brasil nas manifestações de 2013 ou pelo impeachment da Dilma em 2015. Os Sergios Moro, Deganols, Bolsonaros da vida são recrutados entre eles.

São estas classes intermediárias que servem como exército para os poucos bilionários do mundo. Desprovidos de massa em sua própria classe, já que não representam mais que 1% da sociedade capitalista, a grande burguesia se utiliza dos setores intermediários, através de um
amplo controle ideológico sobre ela para formar seu exército social.

Há então alguma salvação para as classes intermediárias no que se refere à sua integração a um projeto democrático e popular? Tem a esquerda que ter uma política voltando para a disputa das classes intermediárias? Sim, é claro! Mas não se disputará este setor nos rebaixando ao seu universo ambíguo, reduzindo nosso discurso para que tenha um sabor água com açúcar, que seja palatável a sua tibieza.

Ganharemos os fracos e os tíbios com a força de nosso discurso, e não o contrário, com a diluição de nossas ideias. Ganharemos os indecisos sem abrir mão do nosso núcleo central de pensamento. Defendendo nossas ideias força. Construindo coerentemente a nossa narrativa social. Apresentando com clareza os caminhos com início, meio e fim de nosso projeto de nação.

O capitalismo em sua fase de monopólio absoluto do capital financeiro global, e em especial no Brasil onde o rentismo capturou toda a classe burguesa, não é compatível com verdadeiro mercado. Aquele mercado que surgiu na idade média como espaço das trocas do que era produzido com a transformação da natureza. Aquele mercado produto e indutor de criatividade e empreendedorismo. O mercado saudável e criativo que pode conviver com o capitalismo original, mas pode também ser estratégico para um projeto popular e democrático de transição inicialmente capitalista e posteriormente socialista.

Se soubermos delinear claramente um projeto nacional, democrático e popular poderemos convencer amplos setores médios da sociedade da justeza de nossa proposta, com o melhor argumento para esses setores. O argumento de que eles terão muito a ganhar materialmente com a sociedade que nós queremos construir no Brasil.

Fortalecimento do Estado e de seu papel estruturador da economia através de empresas públicas em setores estratégicos para o desenvolvimento nacional; ampliação das universidades e dos centros de ciência e tecnologia; investimentos em infraestrutura através de parcerias público privadas que garantam o pleno emprego e a valorização dos salários; ampliação do mercado de consumo de massa que impulsione os pequenos e médios negócios; reforma agrária ampla que garanta terra, produção, beneficiamento, distribuição e venda direta de alimentos baratos e agroecológicos; desoneração do imposto de renda sobre os salários e estabelecimento de um sistema tributário que taxe os bilionários e desonere os salários da média para baixo da pirâmide.

Desmontar os exércitos burgueses, recrutados nas classes intermediárias, já que a grande burguesia não possui tamanho físico pra formar sequer um quartel, é uma tarefa importante da luta pela transformação social. Pensar numa projeto nacional democrático e popular com uma caminho e uma narrativa clara que demostre que há um papel e um espaço de vida melhor para os setores médios é uma parte importante da nossa construção política. E para isso, ao invés de abrir mão de nosso programa, de nossa ideologia e de nossos objetivos, precisamos fazer o contrário.

Mostrar que num mundo e num país comandado pelas forças democráticas e populares, todos ganham, menos a grande burguesia, que cristãmente terá que abrir mão de um pouco dos seus lucros indecentes e anticristãos para que uma sociedade melhor e mais humana seja construída para os brasileiros. Ninguém morrerá com isso, apenas milhões viveram melhor!

Washington Quaquá é presidente estadual do PT e foi prefeito de Maricá, RJ, por dois mandatos (8 anos).

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