Dra. Cristiane Coelho é farmacêutica, estudante de Direito, mãe atípica, mulher negra e sobrevivente de violência doméstica. Sua própria trajetória a aproximou da luta pelos direitos das mulheres, das mães, das crianças e das pessoas com deficiência. Coordenadora estadual do Coletivo Humans na Luta, atua no acolhimento de mulheres vítimas de violência e de mães de vítimas. Agora, é candidata a deputada federal porque acredita que essas mulheres não podem apenas ser representadas: precisam ocupar os espaços onde as leis são feitas e as decisões são tomadas.
Quem é a Dra. Cristiane Coelho e por que você é candidata nas eleições de 2026?
Eu sou mãe atípica, mulher negra e sobrevivente de violência doméstica. Consegui sair da violência doméstica, mas, assim como muitas mulheres, ainda enfrento a violência institucional e outras formas de violência que continuam sendo utilizadas pelos agressores como tentativa de controle sobre as nossas vidas.
Também sou coordenadora estadual do Coletivo Humans na Luta e conheço de perto a realidade das mulheres, das mães, das mães atípicas e das famílias que enfrentam diariamente essas situações. Acompanhamos casos muito graves envolvendo mulheres e crianças, inclusive conflitos nas varas de família que podem colocar vidas em risco.
Foi essa realidade que me trouxe para a política. Não basta que mulheres, mães e vítimas sejam representadas. Precisamos estar nos espaços de poder, participando da elaboração das leis, aprovando ou rejeitando projetos e destinando recursos para políticas públicas que garantam proteção e segurança para mulheres e crianças.
Conte um pouco da sua trajetória pessoal e profissional antes da política. O que nela explica por que você decidiu ser candidata agora?
A minha trajetória é marcada por muitas lutas que precisei enfrentar e sobreviver. Sou farmacêutica, estudante de Direito, mãe e uma mulher cuja história também foi atravessada pela violência.
Foi a partir dessa experiência que passei a acolher mulheres vítimas de violência e mães de vítimas de violência. E, convivendo diariamente com essas histórias, percebi que também precisamos atuar onde as leis são construídas.
Quero estar no Congresso para trabalhar pela atualização das leis, propor novas medidas e também lutar pela revogação de leis que, na minha visão, têm provocado problemas para mulheres e crianças, como a Lei da Alienação Parental.
Qual foi o maior desafio que você já enfrentou e como essa experiência vai influenciar o seu trabalho como parlamentar?
O maior desafio são as perdas. Perdas de mulheres e de crianças que nós acompanhamos e acolhemos. Existem leis de proteção, mas, muitas vezes, elas ainda não conseguem impedir a continuidade das violências.
Precisamos melhorar a forma como essas vítimas são atendidas. É necessário padronizar o atendimento nas delegacias, qualificar o atendimento no sistema de Justiça e garantir uma atenção específica às pessoas com deficiência, especialmente às crianças com deficiência.
Ao longo dessa caminhada, percebi que ainda falta preparo institucional para atender essas pessoas. Inclusive, existem mulheres que adquiriram deficiências em consequência da própria violência que sofreram. Elas precisam de um olhar específico e de uma rede preparada para acolhê-las.
Foi também essa necessidade que me fez colocar meu nome à disposição. Quero trabalhar para que as instituições estejam preparadas para atender e proteger mulheres, crianças e pessoas com deficiência.
Quais serão as três prioridades do seu mandato?
Minha primeira prioridade será a proteção das mulheres, das crianças e das pessoas com deficiência. Quero trabalhar por leis e políticas públicas que enfrentem a violência e garantam atendimento digno e especializado para quem precisa.
A segunda prioridade será olhar para as comunidades. Existem meninas e meninos que crescem sem acesso adequado ao lazer, à educação, à cultura e a oportunidades profissionais. Não podemos lembrar das comunidades apenas quando se fala em operação policial. O Estado precisa estar presente todos os dias.
A terceira prioridade será justamente ampliar essa presença do Estado, levando educação, saúde, cultura e oportunidades para dentro das comunidades. Precisamos oferecer caminhos para que crianças e jovens possam estudar, chegar às universidades e construir outras perspectivas para suas vidas.
Na sua visão, qual é hoje o maior desafio do Rio de Janeiro e qual é a sua proposta prática para enfrentá-lo?
Um dos maiores desafios do Rio de Janeiro é a segurança pública, e isso também envolve a proteção das mulheres e das crianças.
Não acredito que segurança pública possa significar apenas entrar nas comunidades com operações policiais. Precisamos combater o crime organizado com inteligência e estratégia, atingindo a raiz do problema sem transformar quem mora nas comunidades em alvo.
Ao mesmo tempo, precisamos levar o Estado para esses territórios. Quando uma operação paralisa uma escola ou impede o funcionamento de uma unidade de saúde, quem perde é a população. Uma criança que vive em uma comunidade precisa ter as mesmas condições de estudar e disputar uma vaga no Enem que uma criança da Zona Sul.
Segurança também se faz com educação, cultura, saúde e oportunidade. Precisamos apoiar inclusive as organizações que já atuam nesses territórios, muitas vezes chegando onde o poder público ainda não chegou.
Como você pretende manter um diálogo direto e transparente com a população ao longo de todo o mandato e não apenas no período eleitoral?
Eu digo que o meu mandato será coletivo. Não quero apenas representar as mulheres. Quero levar essas mulheres para dentro do mandato. Mulheres dos coletivos que estão comigo durante a campanha também precisam participar da construção do gabinete e das decisões.
Quero continuar visitando os territórios e acompanhando de perto cada região onde estamos construindo essa caminhada. Não adianta aparecer durante a eleição e depois esquecer esses lugares.
Principalmente nas comunidades, precisamos manter uma presença permanente. São lugares onde muitas mulheres ainda têm medo de denunciar a violência doméstica e onde meninas e meninos precisam de proteção e oportunidades.
Política pública não pode se resumir a uma promessa durante a campanha. Precisamos levar dignidade, educação, cultura, formação profissional e acompanhar de perto os resultados das políticas que construirmos.
Por que o eleitor deve confiar o voto em você em 2026 e o que pode esperar da sua atuação no dia a dia?
Eu peço o voto principalmente às mulheres, às mães, às vítimas de violência e às famílias que conhecem essa realidade de perto. Eu não falo dessa dor apenas porque ouvi falar dela. Eu e minha família vivemos essa realidade. Conhecemos a violência doméstica, a violência institucional e sabemos como essas violências podem continuar e se agravar.
Eu sou uma de vocês e quero estar com vocês no Congresso Nacional. Quero que as mulheres também participem desse mandato para que possamos construir leis a partir da nossa própria realidade.
Precisamos de leis eficazes, mas também precisamos cobrar para que elas sejam verdadeiramente aplicadas. Não basta uma proteção existir no papel enquanto mulheres e crianças continuam sofrendo violência.
É por isso que quero chegar ao Congresso: para ouvir, acolher, propor, fiscalizar e cobrar. Para que mulheres, mães, crianças e pessoas com deficiência tenham voz dentro do Parlamento e para que essa voz se transforme em políticas públicas de verdade.




