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O Golpe nunca vem sozinho, mas podemos derrotá-lo

Por Inês Pandeló

A primeira mulher presidente do nosso país foi deposta injustamente. Um impeachment foi tramado pela direita desde a divulgação do resultado eleitoral que deu vitória à Dilma e a levou ao segundo mandato. A partir daí veio a construção do golpe político e misógino na justiça, no congresso e nas ruas.

Milhares de cidadãos e cidadãs foram levados ás manifestações pelos grandes empresários e pela grande mídia, acreditavam que a corrupção do PT era o grande mal da nação. Não passou muito tempo para as delações saírem do controle e as máscaras dos “heróis” do pato inflado caírem, embora alguns ainda se mantenham no poder, com o aval do poder judiciário.

Um golpe, no entanto, nunca vem sozinho. Com a esquerda fora da presidência e um congresso ultraconservador com muitos corruptos, o cenário torna-se muito propício para o retorno de propostas de retirada de direitos, sonho de muito tempo da direita brasileira, que não admite a justiça social, mesmo que burguesa.

É com este propósito que Temer é um dos articuladores do golpe. Ao afastar Dilma e assumir a presidência, o próprio ilegítimo disse não ter interesse em ser candidato à reeleição e iria fazer o que precisava ser feito e assim fez. As chamadas reformas, trabalhista e da previdência, são exemplos claros do serviço prestado pelos golpistas a sua classe dominante. As denúncias contra Temer e seus ministros tumultuaram e retardaram um pouco o processo, mas para a elite de nosso país o que importa não é este ou aquele na presidência, o que importa é que quem estiver lá tenha força para aprovar as reformas para que seus lucros cresçam com a manutenção de seus privilégios. Por isto a TV Globo apóia o Fora Temer e aposta nas eleições indiretas.

Na esteira do golpe e da retirada de direitos outros projetos como a ampliação da terceirização, a retirada da discussão de gênero na educação, a reforma do ensino médio, a escola sem partido (ou de mordaça), possibilidade do trabalhador rural receber a “remuneração de qualquer espécie”, mudança na demarcação de terras indígenas, entre outros, avançam.

Embora pesquisa recente da Folha de São Paulo tenha divulgado a ampliação da aceitação de pensamentos á esquerda, as notícias que lemos e as manifestações de pensamentos e ações reacionárias que observamos, presencialmente ou nas redes sociais, também demonstram que na sociedade brasileira há um percentual grande de pessoas que com o golpe se sentem mais respaldadas para agredir, discriminar e ofender as mulheres, os homossexuais, os pobres e os negros. Nos últimos tempos há registros também do aumento dos assassinatos no campo, do aumento da fome e da população de rua.

E o que nos resta então? Estamos no tempo de resistência e reconstrução. Nossas manifestações de ruas e de internet por Diretas Já, Nenhum Direitos a Menos e Fora os que estão e os que vierem a estar na presidência sem voto direto, são extremamente importantes e necessárias. São trincheiras de luta e também de busca da construção de uma narrativa e conscientização pela esquerda da opinião pública em buscas de uma nova sociedade. Estas manifestações, no entanto, só terão a força que necessitamos se a maioria da população se sentir parte.

Ao que parece esta luta será longa, por isto é urgente retomar com força o tão falado trabalho de base, com formação através da conversa e da organização no “tete a tete”, no pé do ouvido, nos núcleos temáticos, de moradia e de categoria, nos sindicatos a partir do chão do local de trabalho, nas igrejas a partir da pastoral ou grupo que estamos inseridos, nos pontos de ônibus, nas filas dos bancos… Como nos velhos tempos, temos que ganhar os corações e mentes do povo, que precisa voltar a ter confiança em si mesmo e em seus líderes.

É esse, a meu ver, o único caminho que garantirá um futuro de democracia e de retomada dos direitos na construção de uma nova sociedade – o socialismo.

Inês Pandeló é jornalista, conselheira do Cedim – Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Presidente de Honra da Associação Mulher Cidadania, Ambiente e Economia Solidária, Membro do Diretório do PT de Barra Mansa, ex vereadora e prefeita de Barra Mansa e deputada estadual por três mandatos.

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