Feminismo no Brasil: conheça o movimento e suas vertentes

Feminismo no século 21: o que é e por que existe?

Com a polêmica em torno de Fernanda Lima e seu programa, que abordou direitos das mulheres, o movimento feminista voltou a ser alvo de ataques nas redes sociais. Que tal conhecermos mais para compreendermos melhor do que se trata o feminismo e suas vertentes?

Feminismo no Brasil: conheça o movimento e suas vertentes
Feminismo no Brasil: conheça o movimento e suas vertentes

Nesta semana, o movimento feminista no Brasil foi alvo de mais uma onda de ataques. Tudo porque Fernanda Lima, apresentadora da Rede Globo, fez uma fala em seu programa “Amor e Sexo” sobre igualdade entre homens e mulheres, ilustrando como a sociedade trata mulheres que ousam escapar do espaço ao qual lhe destinam. Que tal aprendermos um pouco sobre a história, o conceito e pelo que luta o feminismo o Brasil e no mundo ainda hoje?

O movimento feminista, por definição, é um movimento que busca direitos iguais entre mulheres e homens. É um movimento social e político existente no mundo desde o século XIX. No Brasil, o feminismo ganhou força a partir dos anos 60, momento em que o país lutava também pela redemocratização. Eram mulheres privilegiadas, conscientes do lugar reduzido da mulher quanto ao papel social, com acesso a estudo e informação.

Hoje, no entanto, não devemos falar em apenas um feminismo, mas sim em feminismos. Apesar da luta primária que ainda define o movimento em sua essência, ele se subdividiu em vertentes de luta de grupos e coletivos de mulheres de acordo com o lugar de fala e as experiências vividas por cada uma delas.

Entender esse ponto de partida de cada vertente do movimento é primordial para compreendermos o movimento em si, que diz muito sobre o lugar de cada mulher, suas lutas em suas realidades, a partir de suas origens que, agora, têm espaço dentro do contexto maior do feminismo como causa ampla.

As lutas do movimento feminista

Isso diz respeito, por exemplo, ao período inicial do movimento feminista em contraponto ao que ele é hoje. Se antes começou com e por mulheres brancas, europeias, de classe alta, que tinham acesso à educação e uma vida privilegiada, hoje ele é múltiplo e não pertence mais a esse grupo elitizado e branco que luta por direitos civis. Hoje esse grupo é também a mulher negra, a mãe, a lésbica, a jovem, a idosa, a mulher da periferia, etc.

Não se trata de uma segregação ou separação da luta, o que poderia ser visto como fator que enfraquece os objetivos da causa. Pelo contrário, amplia a narrativa e atinge mais mulheres, justamente por surgir da democratização do acesso a informação e por emanar destes lugares de fala e não o contrário, como um conceito imposto. Também não deve ser interpretado como uma forma de tratar mulheres de forma especial, com vitimismo  ou com “mais direitos”.

Feminismo combate a cultura de uma sociedade machista por construção social, histórica. Séculos desta formação machista causaram danos irreparáveis ao que se entende como sendo o papel da mulher na sociedade ao longo da história. Buscar a equalização e reparação dos efeitos nefastos dessa cultura machista é o que hoje norteia o movimento feminista enquanto conceito – e por isso, também, ele se desdobra e se modifica tanto: quanto mais conhecemos nossa sociedade, mais machista a percebemos.

Machismo x Feminismo: são opostos?

Um erro comum ao abordarem o feminismo é associá-lo, de modo a denegrir a luta, ao machismo, como se fossem conceitos opostos. Um erro grave. Feminismo não é o contrário de machismo. Enquanto o feminismo busca um contexto de igualdade entre gêneros, o machismo oprime este sistema de igualdade, impossibilita que a luta siga adiante e apaga a condição de mulher das mulheres na sociedade. O machismo é um comportamento que coloca o homem em condição de superioridade em relação a mulheres. E isso não se dá apenas no discurso, mas sim nos modos, costumes e ações do modelo de estrutura familiar, política e social que temos até hoje, no século 21.

Conquistas, avanços e desafios: o feminismo no século 21

Não podemos dizer, no entanto, que o movimento feminista não tenha conquistado avanços ao longo de sua existência. Muito antes de ser um conceito amplamente conhecido e debatido pelo grande público, o feminismo vem resistindo nas entrelinhas da história, conquistando direitos como o de mulheres poderem dirigir, frequentar educação superior, votar, concorrer a cargos públicos, bem como conquistas sociais como cargos altos em empresas, maior presença no mercado de trabalho e uma consequente ascensão social e financeira.

Hoje, como dissemos, a luta é muito maior. Diz respeito a mais que assegurar direitos, mas também a equalizar uma sociedade historicamente injusta. Por isso as vertentes são importantes. Porque, por mais que seja difícil para uma mulher conquistar um importante espaço social, seja no trabalho ou na educação, ou no que ela desejar, é infinitamente mais difícil se essa mulher for da periferia, e mais difícil ainda se ela for negra. E lésbica. As lutas e opressões ganham outras dimensões que só quem vive sabe de fato pelo que, por quem, por qual causa tem que lutar.  A luta se ressignifica.

Popularizado pela internet, o feminismo tem nas redes sociais um grande aliado para a construção de uma rede de troca de informações, de crescimento e de proteção entre mulheres ao redor do mundo. Essa intensa troca possibilita um potente avanço das pautas, das conquistas e das discussões acerca da resistência do movimento. Através da internet, mulheres se mobilizaram e trouxeram a tona temas como o estupro, o assedio e a cultura de violência contra a mulher que ainda enfrentamos.

Tamanha popularidade, apesar de ajudar no crescimento da pauta e ampliação do movimento, também trouxe ao movimento um grande desafio: o descredito da sociedade a partir de campanhas de conservadores que demonizam o movimento. Tentam, a todo custo, colocar o feminismo como luta que se opõe a valores como a família, a religião e instituições como a maternidade e a religião.

Se analisarmos, não é nenhuma novidade que o movimento tenha que enfrentar estes desafios ao ganhar popularidade e a mídia. Quando se tenta alterar sistemas de controle, como é o sistema patriarcal, muitas estruturas são ameaçadas. A reação é a de tentar naturalizar o machismo com argumentos que se valem da religião, do conservadorismo e do apego a valores tidos como tradicionais, cristãos, éticos e morais. Essa resistência é um obstáculo, sem sombra de duvidas, mas aponta para a direção correta. Ainda é preciso muita luta.

Os feminismos

Com informações da entrevista cedida por Carolina Branco de Castro Ferreira ao Huffington Post.

Dentre as diversas vertentes com as quais o feminismo se apresenta, vamos falar de três delas, classificadas com as principais por Carolina Branco de Castro Ferreira, pesquisadora do tema na Unicamp. Segundo Carolina, o feminismo negro, o feminismo interseccional e feminismo radical compõem essa tríade no feminismo brasileiro

  1. Feminismo Negro

“O feminismo negro chega nos anos 80, concomitantemente com o fortalecimento do movimento negro no Brasil, e depois as mulheres vão fazendo seus próprios grupos”, explica Carolina.

Ele surge da ideia de que a mulher negra, por sofrer de uma dupla opressão, não é representada por outros “feminismos”.

“O profundo debate de raça e gênero é o que diferencia o feminismo negro de outros feminismos”, explicam Nênis Vieira, Xan Ravelli, Larissa Santiago, Maria Rita Casagrande e Charô Nunes, do site BlogueirasNegras.org.

“Ele inclui pautas como, no caso brasileiro, o genocídio da juventude negra e como isso tem impactado as mulheres negras. Questões como a intolerância religiosa e a valorização das religiões de matriz africana são também parte do debate feminista negro que, acreditamos, não sejam pautas nem prioridades em outros feminismos”.

Audre Lorde, Suely Carneiro e Angela Day são algumas das formuladoras desta corrente do feminismo.

  1. Feminismo interseccional (pós-moderno)

O feminismo interseccional é uma colcha de retalhos.

Ele procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe social, raça, orientação sexual, deficiência física… São exemplos de feminismo interseccional o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo negro.

Mas como tanta diversidade consegue caminhar na mesma direção? “É uma tentativa de grupos de costurarem demandas, o que não é fácil. Algumas vezes, na prática, é difícil operar politicamente”, comenta Carolina.

Entre suas principais autoras estão Avtar Brah, Anne McClinton e Kimberly Cranshaw.

Este também é o feminismo mais receptivo à participação dos homens no movimento. “As radicais, nos anos 70 e mesmo hoje são completamente contra, porque para elas homens são opressores por natureza”, explica Carolina, que se considera uma feminista interseccional.

  1. Feminismo radical

O feminismo radical nasceu entre os anos 60 e 70, a partir das obras de Shulamith Firestone e Judith Brown.

Ao contrário do feminismo liberal, popular nos Estados Unidos, que vê o machismo como fruto de leis desiguais, ou o feminismo socialista, que vê no capitalismo a fonte da desigualdade entre gêneros, o feminismo radical acredita que a raiz da opressão feminina são aos papéis sociais inerentes aos gêneros.

A partir dos anos 2010, com o boom do feminismo na internet, a vertente radical foi retomada por garotas jovens, autodenominadas “radfem”.

“São mulheres jovens, que reivindicam uma espécie de volta de um determinismo quase que biológico: mulheres são aquelas que têm vagina, que têm filhos, que têm ovário”, comenta Carolina.

O feminismo radical se desdobra em muitas vertentes. Uma delas são as TERF, sigla para “Trans-Exclusionary Radical Feminists”, ou seja, feministas radicais que excluem transexuais.

“As radfem recuperam esse argumento dos anos 60 e 70 e adaptam a questões atuais. Por exemplo: parte delas acha um absurdo que mulheres transsexuais se auto-identifiquem como feministas, porque elas nasceram biologicamente como homens“, diz Carolina.

 

 

 

 

 

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