A democracia e o Ministério do Vai dar Merda

Fundação FHC, a máquina de sugar recursos públicos
23/10/2017
A cena cultural carioca (ou a falta dela) na Era Crivella
24/10/2017

Chico Buarque, no início do primeiro governo Lula (2003), sugeriu que Lula criasse o “Ministério do vai dar Merda”. Isso quando ainda engatinhávamos na arte de governar. Claro que, no início, é natural que todo governo popular cometa erros e vá “ganhando embocadura” na prática concreta de governar.

Uma das maiores contribuições que o Lulismo/petismo deu a esquerda brasileira em sua história foi desmistificar a ideologia construída pela direita que pobre, operário e político de esquerda “não sabia administrar nem uma carrocinha de pipoca”, além de ter, de fato, formado uma geração de pobres e militantes na arte de governar. Isso não é um feito histórico pequeno!

Mas superamos os problemas iniciais de inexperiência e passamos a comandar uma imensa máquina política e administrativa do governo federal, criando programas inovadores que mudaram a vida de milhões de brasileiros e brasileiras. Resultados concretos de uma esquerda que deixou o blá-blá-blá e passou a mudar a vida real, concreta, cotidiana de milhões de pessoas. Uma esquerda que interferiu na dinâmica econômica e iniciou mudanças expressivas na base econômica do país. Esse foi mais um feito histórico do Lulismo/petismo.

Porque é possível ser uma esquerda Virgem, sem alianças, sem erros, sem pisar a lama e sem meter a mão no excremento produzido na vida real e na política concreta. É possível sim! Mas essa é uma esquerda que não ganha eleições significativas e não governa milhões de pessoas. Uma esquerda que não muda a vida de ninguém! Que não altera as bases da injustiça e não promove os pobres a degraus de cidadania. E sem degraus de cidadania, os pobres nunca serão cidadãos e nunca vão ser ganhos pra nenhum processo revolucionário. Maiorias famintas não pensam em mudança social, no máximo se engalfinham em busca da sobrevivência. As revoluções são feitas em períodos de avanço econômico e por quem experimentou melhorias sociais e quer avançar, e não retroceder. Portanto nossa obra nos 12 anos de governos Lulistas foram sim revolucionárias.

Mas no que pese todo os avanços na distribuição de renda e no empoderamento cultural das classes populares, em especial da juventude em maioria negra, que passou a ter acesso à universidade e ensino técnico de qualidade, três erros foram decisivos para se permitir que o golpe fosse dado contra o governo popular eleito, obviamente sem contar os erros de condução política tática do governo Dilma. E esses erros foram decorrentes de uma avaliação errada e displicente historicamente do papel da burguesia nascida no Brasil (digo nascida, porque de brasileira ela não tem nada). A burguesia vagabunda daqui é vassala dos interesses imperialistas internacionais e não tem vontade e nem compromisso com um projeto de desenvolvimento nacional autônomo, que pressupõe democracia e distribuição de renda, prestígio social e cultura.

Para se ter levado a cabo (e para se levar a partir da retomada de um novo governo Lula a partir de 18) um projeto de desenvolvimento nacional com distribuição de renda consistente e permanente ao logo de décadas, é preciso fortalecer a democracia. Como dizia Chico Buarque, criar um “Ministério do vai dar merda”. Ou seja, não exatamente um órgão em si, mas o governo precisa estruturar em seu núcleo político um comando que cuide de três coisas:

1- primeiro, organizar o povo que é beneficiado pelas políticas sociais em forma de militância, o que requer organismo de base e intermediários, como redes de comando e extensa rede de formação política. Se tivéssemos 10 milhões de pessoas do povo organizadas, não haveria parlamento, corte suprema ou exército a dar golpe na democracia. Complementando essa ação, é necessário democratizar os meios de comunicação e organizar a difusão e produção cultural, dando vez a toda a sociedade para que ela se expresse no cinema, na TV, nos teatros, etc.

2- democratizar os organismos de poder não popular e garantir a hegemonia das maiorias sociais em sua composição. Não há pobres, negros, indígenas nos tribunais de justiça, no ministério público, nos tribunais de contas, na polícia federal. Estes organismos são totalmente dominados pelo topo da pirâmide social. São os ricos e a sua pequena burguesia a dominar o que se tornou o verdadeiro poder da nação. Para isso é urgente e necessário uma reforma do Estado Brasileiro, muito mais ampla que apenas uma reforma eleitoral, embora esta seja uma pequena parte importantíssima também da reforma do Estado.

3- e por último, é preciso recriar uma burguesia verdadeiramente nacional e criar um sistema misto estatal/cooperativo que organize federativamente (especialmente em parceria com os municípios) uma nova economia com capacidade de investimento, inovação e produção de bens e serviços, utilizando-se da imensa capacidade laborativa, criativa e empreendedora do povo brasileiro.

Portanto, organizar a ofensiva e a consolidação do poder popular na sociedade, na institucionalidade e na estruturação da economia, são três frentes fundamentais para a sustentação de um ciclo longo de transformações que busque a mudança qualitativa da vida do povo. É como se fosse a instituição do famoso “ministério do vai dar merda”!

Washington Quaquá é presidente estadual do PT/RJ e foi prefeito de Maricá por 2 mandatos (8 anos), tendo ajudado a eleger seus sucessor.

Os comentários estão encerrados.