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Cadê nossos exércitos

Mas é fato que a democracia trouxe ganhos para o povo. E o golpe agora sofrido pelas forças populares não deve nos levar à desistência do caminho da democracia. Mas deve nos tirar as ilusões sobre o compromisso democrático da burguesia e, em especial, da burguesia nascida no Brasil.
Por Washington Siqueira Quaquá

À beira do golpe militar de 1964, o honrado e grande dirigente comunista Luiz Carlos Prestes declarara que não via clima para uma intervenção militar; o governo confiava no seu “dispositivo de segurança”, vindo do apoio dos sindicatos e dos setores legalistas das forças armadas. Do lado das forças populares, só se viu bravata e do lado da direita disposição e falta de escrúpulos para ir até as últimas consequências. O golpe foi dado e ficamos 21 anos sob ditadura empresarial/militar.

A história, não necessariamente, se repete, nem como tragédia e nem como farsa. Mas como essa máxima de Marx e do marxismo não são uma bula de remédio para todos os males, ouso dizer que, hoje, a história pode simplesmente se repetir, sim, com outras roupagens e a mesma essência. Ao que parece, é o que estamos vendo acontecer agora no Brasil.

A saída construída pela elite brasileira para dar fim à ditadura militar, após 21 anos, logrou integrar o conjunto da esquerda através da institucionalidade pactuada na constituinte de 1988. Este pacto agora foi quebrado. Mas parece que, ou nós não nos atentamos para isso, ou estamos dando uma de avestruz.

Não que o pacto tenha sido ruim e a democracia que se construiu/tentou construir tenha sido um erro. Todo pacto democrático traz um preço para a esquerda. A Integração ao regime inocula vírus burgueses nos partidos populares e de esquerda. Cria burocratas; aguça vaidades e infla o ego de vaidosos entre nós; corrompe nosso programa; corrompe nossa perspectiva estratégica; alguns se imiscuem demais na relação com as classes dominantes e passam a operar mais na sua lógica do que na lógica popular…

Mas também traz benefícios muito grandes para quem faz política de fato ao lado do povo, defendendo os reais interesses populares. Tem gente que usa o povo como recheio para suas teses de doutoramento, ou para seus programas políticos. Para esses, não importa o povo real, que come mal ou não come; que vive mal ou quase não vive; que mora mal ou mora na rua; que se educa mal ou nem acesso à educação tem; que não tem saúde e nem acesso a médico ou prevenção. O povo se torna para eles apenas uma profissão-de-fé ou um compromisso filosófico formal.

Para quem vê o povo e as massas majoritárias como elemento ativo, essencial e imprescindível para a revolução social, sendo ela própria a própria revolução social, só há sentido ser se houver a construção de uma sociedade onde as massas populares sejam as senhoras de uma vida e uma sociedade digna, substantivamente democrática e economicamente justa e mais igualitária. Nós avançamos razoavelmente no Brasil pós-ditadura, e em especial nos 12 anos de governo lulistas.

A elevação das condições de vida e dos patamares de desejos sociais, econômicos e culturais das massas populares, são atos revolucionários em qualquer lugar do mundo. Mas é mais ainda especial num país de apartação social. Num país onde o povo não passou em toda a sua história em tração animal para mover o engenho colonial. Neste país, ter tirado 40 milhões de deserdados da fome; ter enchido as universidades públicas e privadas de negros, agricultores pobres, índios, dos sem direito à esperança; ter feito 56 milhões de esquecidos terem acesso à assistência médica com o programa “Mais Médicos”, em um choque/encontro cultural com os cubanos; ter construído sete milhões de habitações dignas no “Minha Casa Minha Vida”; ter construído 1,5 milhões de cisternas para armazenas água no semiárido nordestino; enfim, tudo isso eleva as massas desprezadas e sem autoestima para um patamar humano novo. Ninguém que seja honesto intelectualmente pode menosprezar o que fizemos de importante no Brasil nos governos Lula e Dilma.

A luta pelo socialismo bebe e se alimenta da elevação do padrão cultural, econômico e social das massas humanas. As massas descartáveis no capitalismo, e em especial neste capitalismo de engenho colonial, quando se integram à civilização humana, acabam demandando justiça, direitos, organização, rebelião… Por si só, os feitos dos 12 anos de governos lulistas já seriam suficientes para deixar marcas muito profundas na sociedade brasileira e em nossa história. Portanto, a democracia e seu período de conquistas foi – e é – um patrimônio da luta popular brasileira.

A democracia pós-ditadura, fruto da “negociação” social brasileira, só foi possível porque a panela de pressão ameaçava estourar, sobretudo com o surgimento do novo sindicalismo, apesar de todos os entulhos autoritários e do elitismo de sempre, e nos possibilitou todos estes avanços. Seria possível uma saída revolucionária e não um processo de mudanças pela via institucional nos marcos da democracia? Nas condições de falta estrutural de organização e consciência popular, dificilmente. Se Lula ou Brizola tivessem ganho as eleições de 1989, numa conjuntura de menor integração da esquerda à institucionalidade, teria sido possível realizar reformas mais potentes? Ou realizar ruptura revolucionária? São perguntas de difíceis respostas, até porque não se realizaram.

Mas é fato que a democracia trouxe ganhos para o povo. E o golpe agora sofrido pelas forças populares não deve nos levar à desistência do caminho da democracia. Mas deve nos tirar as ilusões sobre o compromisso democrático da burguesia e, em especial, da burguesia nascida no Brasil. A burguesia desta fase do capitalismo financeiro não tem compromisso democrático. A nascida no Brasil, que não passa de uma sócia minoritária a gerenciar o negócio colonial, tem menos ainda. Então, a defesa da democracia, sua ampliação como democracia popular e de massas, é essencial e unicamente uma tarefa das classes populares e da esquerda. Assim, embora a democracia seja uma invenção da teoria política liberal burguesa, a burguesia só a inventou para aglutinar as massas em torno da sua liderança revolucionária, durante a luta contra o antigo regime. À medida que ela foi consolidando sua sociedade, a democracia passou a ser um incômodo. Um sistema político baseado nas decisões de todo o povo não é compatível com um sistema econômico baseado na exploração deste povo por uma minoria social.

Assim, quem deve zelar pela democracia e construir os mecanismos de proteção são as massas populares e as organizações de esquerda. Talvez tenha sido este o nosso maior erro durante os 12 anos em que estivemos no comando do governo federal. Ao acreditar que a burguesia nascida no Brasil tinha compromisso com o pacto democrático; ao não acreditar que a grande burguesia mundial não toleraria um Brasil virar potência, sem agir para nos destruir como nação; ao acreditar em um republicanismo sem luta de classes, esquecemos de construir uma potente organização popular que sustentasse essa democracia. As mudanças sociais que melhoraram a vida de milhões e nossa soberania diante dos impérios e do grande capital da burguesia internacional se tornaram frágeis aos ataques que estamos assistindo hoje.

Não sabemos se as forças populares, com Lula à frente, tendo o PT e as outras organizações partidárias de esquerda e os movimentos sociais como instrumento de ação e organização, terão potência política para derrotar o golpe instalado no Brasil. A luta ranheta aberta está em curso. Mas o certo é que precisamos mudar nossa maneira de agir e ver a conjuntura hoje, amanhã e depois. Saber que não vivemos mais sob uma democracia, nas sob uma ditadura do judiciário, das forças policiais federais e da mídia. Que para isso precisamos agir na institucionalidade e também fora dela.

A resistência ao golpe fez muitos jovens e muita gente do povo se reaproximar de nós. Manifestações de grande participação popular foram realizadas em denúncia ao golpe e pedindo Fora Temer e Diretas Já. A caravana do Lula pelo Nordeste mobilizou não só o povo nordestino, mas encheu de esperança as forças populares. O volta Lula passou a ser um desaguar das esperanças das classes populares. Mas essa esperança não pode ser um esperar passivo, porque as forças do golpe não estão passivas!

Cabe às organizações de esquerda e populares, com o PT à frente e tendo Lula como o grande catalizador das esperanças nacionais e populares, transformar tudo isso em organização política condensada. Organização política requer programa e projeto de nação que seja inteligíveis ao povo e produzam uma narrativa simples sobre os legados deixados em 12 anos mas que, sobretudo, anuncie um futuro ainda melhor. Neste caminho, a Fundação Perseu Abramo e a direção nacional do PT estão lançando o projeto “O Brasil que queremos”. A direção nacional do PT assumiu essa tarefa como prioritária, mas cada diretório municipal e zonal, mais ainda, cada militante deve, no seu local de moradia, estudo ou trabalho, realizar reuniões para discutir com o povo o projeto de Brasil ué todos queremos com a volta do Lula.
Além disso devemos envolver o MST, a CUT e todas as direções e estruturas militantes dos movimentos sociais nesta tarefa, além de chamar o PCdoB e a esquerda aliada para esta imensa tarefa de condensar um programa popular nacional a partir de uma ampla discussão com o povo.

Outra tarefa é montar uma extensa rede de formação política. Em um ano a dois anos podemos construir escolas de formação política em TODOS os estados brasileiros. Gastamos muitos milhões de reais com marqueteiros, campanhas eleitorais caríssimas e todo um conjunto de gastos fugazes. Com muito menos recursos, teríamos consolidado uma rede nacional de formação de militantes e dirigentes. Mas nunca é tarde para começar! Um movimento de esquerda transformador precisa formar militantes conscientes e capazes de analisar a conjuntura e entender a realidade da sociedade. Podemos formar todo ano milhares de militantes a partir de uma rede de escolas de formação com uma em cada estado, tarefa também a ser realizada em conjunto com MST, CUT e com mais quem topar entrar nesta rede. Envolveríamos assim centenas de intelectuais e dirigentes voluntários para essa imensa tarefa de formação política da militância de esquerda brasileira.

A terceira grande tarefa é o fortalecimento da rede de militância de base a partir da criação em cada bairro, bloco de aptos do Minha Casa Minha Vida, favelas, comunidades, fábricas, escolas, universidades, ocupações urbanas e rurais etc de núcleos de militância ativa. Sejam os núcleos do PT ou sejam da Frente Brasil Popular. Mas nuclear e organizar muitas centenas de milhares de brasileiros e brasileiras é tarefa essencial. Não basta como fazemos no PT, de nos gabar porque estamos cadastrando pessoas como filiados, seja agora com o coração, seja no passado recente com a máquina e os recursos institucionais, cadastrar filiados não é o mesmo que organizar militantes. Precisamos organizar nossos exércitos. Centenas de milhares agora, já! Alguns milhões quando voltarmos ao governo nacional. Partir dos beneficiários de nossos programas sociais e organizá-los para formar nosso exército de proteção democrática e popular.

Se tivéssemos organizado os beneficiários do Bolsa Família, os estudantes cotistas, quem teve uma cisterna em sua casa no semiárido, os moradores do Minha Casa Minha Vida, os jovens das escolas técnicas federais (institutos federais tecnológicos), a direita não teria tido força pra dar o golpe, porque milhões de militantes e de gente do povo consciente e organizada teria ido para as ruas defender as conquistas e a democracia. Mas quando veio a organização do golpe, a partir das manifestações de 2013, não tivemos com quem contar. Não tínhamos exército nosso formado, organizado, não havia quem mobilizar, mesmo tendo tanta gente que pudesse se encaixar nas nossas lutas. Não podemos repetir o mesmo erro. Será nesse grande contingente de jovens beneficiados pelas cotas e pela expansão das universidades e institutos federais; de moradores das favelas e das periferias; das mulheres; dos trabalhadores da cidade e do campo; dos aposentados, enfim, dessa grande massa de gente que está perdendo os direitos a cada dia do golpe, que devemos investir para criar o nosso exército. A hora é agora.

Washington Quaquá é Presidente estadual do PT-RJ e foi prefeito de Maricá por oito anos (dois mandatos), tendo eleito o sucessor.

 — comWashington Siqueira.

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