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A burguesia brasileira não é brasileira

Por Washington Quaquá

A esquerda brasileira sempre pisou na casca-de-banana quando partiu para uma política, simplista, de buscar construir uma aliança política com a burguesia para construir um “projeto nacional”. Foi isso que o partido comunista tentou fazer, a partir da constituição da Aliança Nacional Libertadora (ALN), na década de 30, e com as políticas de frente popular nos anos de guerra e pós- guerra. Foi isso que nós, do PT fizemos nos governos lulistas, com maior sucesso de 2002 a 2014.

Até 2015, pareceu realmente que a burguesia havia se rendido ao charme e à força política avassaladora do presidente Lula. Nosso presidente transformou-se em uma das figuras mais admiradas e respeitadas em todo mundo todo. Lula era um exemplo por sua história de vida; suas qualidades pessoais; sua sagacidade política e o pelo sucesso interno de seu governo, combinado a uma política externa assertiva e admirada. Até o ex-presidente do império americano, Barack Obama, teve que se render ao gigantismo do presidente brasileiro cunhando a frase: “você é o cara!”.

Mas o beijo do Obama também pode ter sido menos um gesto de carinho e mais o beijo premeditado da morte. A queda do petismo no governo do Brasil, em 2016 com o golpe de estado, já tinha sua semente no processo judicial da AP470 (que a imprensa batizou de mensalão), passou pelas manifestações de 2013 e, depois, pela montagem do complexo oposicionista da “operação Lava Jato”, ou seja, não foi nada desarticulada. E muito menos foi articulado aqui, na aldeia tupiniquim, atendeu a interesses internacionais. Mas isso já merece um outro artigo.

A verdade é que, não só o sistema de tramas políticas e de controle se sofisticaram, como o império americano e os poucos bilionários do mundo, que controlam o planeta acima dos Estados nacionais. Bilionários que se materializam numa entidade semi-material chamada mercado..

Definitivamente, a criação da internet e a posterior invenção e sofisticação dos smartphones vêm revolucionando a humanidade. O fluxo de capitais passou a ser exercido não mais de forma material, mas através da rede de computadores, 24h por dia. O capital flutua de país em país, podendo turbinar ou explodir economias e nações num piscar de olhos, a partir da decisão do “mercado”. As ditas commodities têm seus preços fixados parte por condições objetivas de oferta e procura, mas também tem uma parte volátil que também depende de humores da entidade “mercado”.

Essa dinâmica ajudou a impulsionar ainda mais o processo de financeirização do capitalismo. O setor concreto, material, transformador da natureza, produtor de mercadorias reais, a partir da coordenação do capital, já havia perdido há muito a hegemonia para o capital financeiro. Mas, com o advento da internet, o setor financeiro especulativo, virtual e parasitário do capitalismo passou a controlar tudo e todos globalmente.

As taxas de lucro do setor produtivo real passaram a ser menores que as taxas do capital especulativo financeiro. Todos os capitalistas passaram a colocar a maior parte de seu capital em fundos de investimento e a financeirização não se constitui mais na hegemonia de um setor da classe burguesa, mas ela passou a ser, na verdade, a essência da própria classe. É mais lucrativo manter a maioria do seu capital na ciranda financeira se valorizando pelos juros do que realizando a produção material concreta.

Portanto, não há mais uma burguesia produtiva e outra especulativa, que se opõe estruturalmente. Mesmo a burguesia que gira parte de seu capital na produção real possui também grande parte de seu capital se valorizando mais na especulação financeira. Há contradições? Há, mas elas já não são suficientes para promover uma cisão definitiva no bloco de poder dominante!

Essa mudança estrutural no capitalismo contemporâneo só fez que se aprofundasse o caráter fuleiro e vagabundo da burguesia “made in Brazil”. Como os carros da Ford, nossa burguesia é fabricada aqui, mas é apenas uma sucursal da matriz americana. Não é capaz de articular um projeto nacional, baseado na independência tecnológica, na soberania sobre as riquezas minerais, no avanço na educação e na cultura popular, na distribuição mais equânime da renda e na relação multipolar com o mundo, sem subserviência a nenhum império global.

A burguesia “made in Brazil” não gosta do nosso povo; da nossa culinária; do nosso jeitinho brasileiro; de nosso passado índio, negro e lusitano; de nossa geografia; de nossa língua; de nossa música; de nossa cultura; da fantástica identidade brasileira. Nossa burguesia, que já sonhou com o céu de pardais de Paris do século XIX; hoje não passa de mais um personagem de um filme produzido em Los Angeles e rodado em Miami ou Nova Iorque.

Não há a mínima possibilidade desta burguesia brasileira realizar alianças ou parcerias com as forças populares para realizar um projeto conjunto de nação. Essa burguesia nossa é vira-lata, preconceituosa, incapaz, incompetentemente, arrogante com os debaixo e subserviente com as burguesias do império. Agiram com o PT e com Lula como na fábula do sapo que atravessou o rio com o escorpião nas costas, acreditando que não seria picado porque o escorpião não seria burro, a ponto de matar o sapo que o salvava atravessando o rio. Pois os dois morreriam juntos. Ao picar o sapo e, respondendo a este quando perguntou, porque havia feito isso, já que significava também a morte dele, ouviu do escorpião: não resisti porque esse é meu instinto!

Assim é a burguesia brasileira: prefere matar a nação e assassinar as esperanças de seu povo, porque estão no seu DNA, no seu instinto, a subserviência ao império e o desprezo a seu povo e a sua nação.

Então, o que fazer? Já que não há desenvolvimento nacional sem um setor forte e altivo da burguesia? O mercado é, de fato, um instrumento de dinamização econômica e uma invenção que virou um patrimônio humano e não apenas capitalista. Não este “deus mercado” que, na verdade, é um clube de duas dúzias de multi-bilionários que comandam as economias nacionais e o fluxo global de capitais. Mas o mercado do pequeno produtor, do pequeno comerciante, do pequeno capitalista, do empreendedor individual, das trocas cooperativas e solidárias. Porque, inclusive, o capitalismo monopolista é um inimigo das iniciativas dos indivíduos e do empreendedorismo popular que ele mesmo transformou em ideologia e, agora, na sua fase de monopólio financeiro global, o bom mercado virou pó diante do “deus mercado” monopolista.

Portanto, se o PT e a esquerda brasileira querem construir um projeto de nação, um país autônomo, tecnologicamente desenvolvido, com um povo culto e educado, com dinamismo econômico, com desenvolvimento articulando e impulsionando a distribuição de renda e riqueza; devemos ter na esquerda um projeto para a burguesia. Mas não essa burguesia vagabunda que nós temos hoje.

Reinventar a sociedade brasileira; reinventar a nação; reinventar o Brasil; significa construir uma nova classe burguesa e uma nova burguesia que não seja apenas uma gerente dia interesses das metrópoles, mas que tenha um projeto de nação junto com as classes populares detentoras da hegemonia do Estado nacional. Mas sobre isso falarei com mais detalhes no próxima artigo.

Washington Quaquá é Presidente estadual do PT RJ e foi prefeito de Maricá por 2 mandatos.

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